Parte 2: O papel do game designer no desenvolvimento de jogos

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Leia na íntegra 
Confira a primeira parte deste bate-papo 

Neste segundo capítulo, ou melhor, na segunda fase do bate-papo com o game designer (GD) da Donsoft Entertainment, Guilherme Xavier, falamos sobre conceituação de jogos, desafios, superações, mercado nacional, livros, websites, música e, claro,  Capoeira LegendsAtualmente, Guilherme continua como GD de Arte e Design dos próximos capítulos do Capoeira Legends: Path to Freedom e  está envolvido em um projeto de jogo eletrônico para múltiplos jogadores. ” Quanto aos detalhes, um NDA (sigla, em inglês, do termo Non-Disclosure Agreement) não permite que se fale. Mas assim como Capoeira Legends, espero que dê muito o que falar em uma próxima entrevista. :)”, comenta o GD.  

 
Nanda Sarmento – Quais os conceitos que devem ser pensados quando se inicia um projeto de game?

Guilherme Xavier  Jogo demanda coerência. Se for narrativo, a narrativa deve servir ao jogo – e não o contrário. Por isso, o game designer precisa trabalhar conceitualmente os padrões de jogabilidade que espera usar no projeto e visualizar os que melhor dialogam com a temática proposta.

Os conceitos podem variar bastante de projeto para projeto, já que a temática pode ser coberta de maneira diferente, de acordo com o público e o contexto. Mas todos, sem exceção, devem buscar a objetividade de recursos e pessoas, as inovações tecnológicas, o uso criativo da linguagem audiovisual empregada e, principalmente, a diversão e o interesse de quem vai fazer e de quem vai jogar.

NS – Qual foi o projeto de game mais desafiador? Como superou os desafios?

GX – Sem dúvida alguma, Capoeira Legends. Sobretudo, pelo ineditismo do projeto em termos particulares e referenciais. Digo isso porque o que foi colocado como capoeira em jogos anteriores, com desenvolvedores estrangeiros, está mais próximo da acrobacia circense do que da arte verdadeira, segundo nossos consultores.

Os desafios foram superados com muito trabalho em equipe. Dificilmente alguém consegue apresentar soluções, sem antes observar um problema sob ângulos diferentes. A melhor maneira para assim proceder é convidarmos uns aos outros para a observação.

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NS – Qual gênero de game que você mais gosta de trabalhar?

GX –  Tenho preferência em projetar jogos mais reflexivos que ativos, como é o caso do Capoeira Legends. Creio que a minha postura projetiva, diante das diferenças entre distintos gêneros de jogos, não muda dramaticamente.

De certo modo, um jogo interessante de ser jogado foi também um jogo interessante de ser projetado. São, em si, resultados de uma série de escolhas que precisaram ser justificadas. Há quem não trabalhe com determinado assunto. Não é o meu caso. Gosto da exploração da terra incógnita.

NS – Como surgiu a ideia de fazer um game sobre capoeira?

GX – Na organização da Donsoft. Como uma empresa movida por um grupo de pessoas apaixonadas, identificamos uma lacuna local sobre o assunto. Fala-se muito de capoeira na Europa e na Ásia, mas aqui ainda há quem ache que é coisa menor.

Ainda é estranho para nós, que sempre privilegiamos a cultura nacional, não vermos interesse dos criadores e desenvolvedores em explorar o que nos é próximo, nossas tradições, mitos e histórias. 

Assim, acreditando que poderíamos investigar as temáticas culturais com empenho, nos dedicamos a construir um jogo para mostrar ao público internacional a nossa arte marcial mais autêntica.

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NS – Qual foi o valor investido no game? A produção foi feita com investimento próprio da Donsoft?

GX – É difícil responder com exatidão, após seis anos de intensos trabalhos de pesquisa e produção. Calculamos, aproximadamente, R$ 1,5 milhão, entre salários, tecnologia, insumos e pesquisa. Mas também podemos medir por horas de sono perdidas, finais de semanas enfurnados em discussões traumáticas, festas desmarcadas, encontros, desencontros, amizades comovidas, carreiras revistas…

Seja qual for o resultado de nossa planilha, acredito que ainda saímos no lucro. O que conquistamos, como pessoas e profissionais, com esse desafio é difícil computar. Embora muitos teimem em acreditar, tudo o que foi investido saiu única e exclusivamente da própria reunião de pessoas que fundamentam a Donsoft 🙂

NS – Qual a repercussão do game no mercado nacional e estrangeiro?

GX – Pode parecer estranho, mas a repercussão nacional se mostrou mais frutífera, até o momento, do que a estrangeira – apesar de que, como boa parte dos desenvolvedores nacionais, tivéssemos nosso foco além-mar desde o princípio.

Acreditávamos que teríamos, localmente, uma cobertura muito menor do que a que tivemos e agradecemos imensamente a toda a blogosfera nacional, por ser parte fundamental na divulgação de nossos resultados.

É excepcional contar com uma teia tão numerosa de pessoas que se comunicam, de maneira formal ou mesmo informal, por meio das ferramentas colaborativas. O fato desta entrevista estar acontecendo em um blog é uma forma de agradecer a quem faz da internet esta sopa tão rica. 🙂

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NS –  Como o Brasil está posicionado na área de produção de games?

GX – Ainda que distantes em produção, estamos chegando, estamos fazendo. A caminhada é longa e saímos já tardios. Mas temos fôlego e privilégio no mercado internacional: flexibilidade; aprendemos rápido; adotamos a internet como local de nossa segunda existência; o inglês como nosso segundo idioma. E o resultado disso é que não devemos nada a designers e programadores estrangeiros, nascidos e criados na realidade da nova mídia.

Temos muito a aprender ainda, sobretudo em questões de gerência e planejamento – nosso calcanhar de aquiles tupiniquim -, o que maltrata e destroça a grande maioria de sonhos de sucesso. É questão de tempo, para que possamos fazer parte da galáxia internacional de jogos eletrônicos, não só aprendendo, mas também ensinando.

NS – Quais sites tem visitado?

GX – Sou assíduo participante da Kongregate , uma comunidade gigantesca de jogos casuais; e da Everything2, um repositório de definições bem abertas a respeito de… hmmm… tudo. 🙂

NS – Que livros tem lido?

GX – Recentemente, concluí O Tecido do Cosmos, do meu matemático e físico teórico favorito (além de sósia do padre Marcelo Rossi), o Dr. Brian Greene. E ainda, pela metade, Cultura da Convergência, do fabuloso Henry Jenkins. Leituras garantidas!

NS – O que tem escutado de música?

GX – De tudo. Sou um eclético em busca de novidade. Em especial, gosto muito de lounge music (ou downtempo, como diriam alguns, ou chillout, como diriam outros).

NS – Qual é o projeto dos seus sonhos?

GX – Acredito que concretizar a maior parte deles. Bem… Já comecei. 🙂

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