Clássicos do suspense que inspiraram games de terror psicológico

O jovem escritor Harry Mason, após perder a esposa, viaja com sua filha adotiva (Cheryl) para Silent Hill, em busca de tranquilidade. Um escritor de best sellers, Alan Wake, não consegue mais escrever e sua mulher, Alice, o convida para passar as férias em  Bright Falls. Em Nova York, o profissional de TI, Lucas Kane, acaba de sair de um transe e percebe que está dentro do banheiro, com as mãos ensanguentadas e ao seu lado o corpo de um homem.

Na estrada, ainda de madrugada, nas proximidades de Silent Hill, a moto de uma agente policial ultrapassa o carro de Mason. Logo à frente, o escritor percebe o veículo derrubado na estrada e, em frações de segundo, o vulto da policial aparece na frente do seu carro. Mason perde o controle da direção e bate contra um muro. Na cabana, em  Bright Fallsa esposa de Wake prepara uma surpresa que o desagrada. Irritado, o escritor discute com Alice e sai para esfriar a cabeça. Lucas Kane não lembra como foi parar ali, angustiado, ele precisa se desfazer rapidamente das provas que o incriminam.

Ao despertar do acidente, Harry Mason nota que o banco do carona está vazio e sua filha Cheryl desapareceu. Manson está em um local sombrio, coberto de névoa e com o carro destruído. Na escuridão da mata, em Bright Falls, Alan Wake escuta o pedido de socorro de sua esposa, vindo da cabana, e corre em sua direção. Lucas Kane luta contra o tempo e, ao sair do banheiro, percebe que está em uma lanchonete. Kane esbarra com o policial que se dirige  para o local do crime. Lucas Kane foge.

Respectivamente,  Silent Hill (1999),  Alan Wake (2010) e Indigo Prophecy – Fahrenheit (2005) são três grandes títulos em que as similaridades ultrapassam a temática do terror psicológico e revelam a forte influência do cinema em sua narrativa e estética. Assim como o livro está para o cinema, o cinema também está para o jogo. Mas vamos com calma nessas comparações. A princípio, tratam-se de mídias distintas que dispensam paralelos em termos de qualidade no resultado. É bastante comum comentários insinuando, por exemplo, que “o livro é melhor do que o filme”. Tal comparação não é justa ao considerar que a narrativa audiovisual do livro é fruto da imaginação dos leitores e o filme é a reprodução interpretativa sobre alguma obra, onde é necessário incluir outras estratégias que não são necessariamente aquelas planejadas para a venda da mídia livro, como o tempo narrativo em poucos minutos, custo de produção e público-alvo.

Mas o fato é que ao longo desses 40 anos de videogames e levando-se em conta os últimos 20, percebemos que filmes, seriados de TV e livros são referências fundamentais para a elaboração dos jogos. Tratando-se de uma indústria recente em que a tecnologia se expande sem precedentes, muitas vezes a essência das sensações provocadas em grandes clássicos, quando as suas mídias ainda eram consideradas novas, ficaram escondidas. Para elaborar jogos inovadores é necessário revisitar o passado. Muitos designers encontram elementos valiosos ao recordar experiências lúdicas da sua fase infantojuvenil. Talvez os jogos de suspense e terror psicológico sejam aqueles que mais revisitem os clássicos. Afinal, despertar sentimentos como medo, angústia, ansiedade e nervosismo nos  jogadores, em pleno século XXI, não é tarefa nada fácil, tornando-se necessário buscar exemplos para surpreender.

Alan Wake

Desenvolvido pelo estúdio Remedy Game, Alan Wake é um dos melhores títulos do gênero e dentre os aspectos que fazem do jogo um produto de qualidade estão a harmonia da jogabilidade, enredo, roteiro e arte (visual e sonora). As referências começam com o protagonista, Alan Wake, personagem inspirado no autor de best sellers Stephen King. A trama carrega fortes referências, tanto no visual de ambientes quanto na linha narrativa de terror psicológico do filme O Iluminado (1980), dirigido por Stanley Kubrick e adaptado do livro homônimo de Stephen King.

O curioso é que a construção do universo dramático (trama) e, também, parte das referências estéticas da cidade de Bright Falls são baseadas na cidade fictícia Twin Peaks (1990) – seriado americano dirigido por David Lynch e Mark Frost. Os designers dividiram as ações do jogo em capítulos, trabalhando a técnica de roteirização conhecida (pelo termo em inglês) como cliffhanger, em que ao final de cada capítulo um novo dilema é apresentado. A trama de Alan Wake está bem amarrada, existe bom senso no uso de cinematics – animação que ocorre entre as ações do jogo -, utilização de uma linha de arte adequada ao contexto e garantia da qualidade gráfica do game unidos a uma jogabilidade muito bem elaborada.

Pequenos elementos do jogo remetem a grandes clássicos do cinema e da TV norte-americana. Na sua aventura em Bright Falls, Wake também é atingido pelos Pássaros (1963)  de Alfred Hitchcock e, durante a busca intensa por Alice, encontra televisões transmitindo cenas da série Night Springs – escrita por ele mesmo -, tendo como referência estética o seriado norte-americano The Twilight Zone, exibido na década de 1950. Alan Wake ganhou a segunda versão da franquia, Alan Wake Nightmare (2012) e inspirou o longa-metragem Mistério da Rua 7 (2010).

Silent Hill

Não seria a primeira vez que um jogo utiliza o seriado Twin Peaks como inspiração. Um dos precursores dos games de terror psicológico em 3D, Silent Hill, desenvolvido pelo estúdio Team Silent, não só já havia bebido da mesma fonte, como foi referência para o próprio Alan Wake. A marca registrada da jogabilidade de Wake é o uso da lanterna para combater as criaturas sombrias, recurso que o personagem de Harry Manson, em Silent Hill 1, utilizava para iluminar locais escuros.

Outro filme que inspirou a trama e a linha de arte de Silent Hill foi o clássico Alucinações do Passado (1990), de Adrian Lyne, onde o protagonista Jacob, um veterano de guerra, enxergava criaturas bizarras que tentavam tirar-lhe a vida. O livro The Mist(1980), de Stephen King, serviu como fonte para montar os ambientes macabros e cheios de névoas de Silent Hill.

Algumas publicações de videogames indicam que Silent Hill foi inspirada na cidade fantasma de Centrália, localizada no interior da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Em 1962, cinco bombeiros voluntários foram designados para limpar o aterro sanitário da cidade, que ficava sobre uma mina subterrânea e bem próximo ao cemitério local. Quando atearam fogo no lixão, os bombeiros não consideraram que o fogo iria se espalhar pelo interior da mina. Até hoje ninguém consegue apagar as chamas e a previsão é de que ela só termine em 250 anos. Enquanto isso, Centrália é um lugar absurdamente quente, cheio de buracos, a fumaça sai do solo e mantém a cidade constantemente sob neblina.

O jogo ganhou duas versões para o cinema: Silent Hill (2006) e Silent Hill: Revelation 3D  (2012).

Indigo Prophecy

Já Indigo Prophecy, lançado no Brasil com o nome de Fahrenheit, também teve como referência o longa Alucinações do Passado. Assim como Jacob (no filme), o protagonista do jogo, Lucas Kane, sofre perseguições de criaturas diabólicas. Desenvolvido pelo estúdio Quantic Dream, o título tinha como objetivo colocar o jogador na pele de um herói, no estilo cinematográfico, envolvendo-o pela história e não somente pela mecânica. O jogo também é organizado em capítulos, podendo optar por qual ponto de vista da história se deseja prosseguir. Especialmente em Indigo, a narrativa teve como referência o longa Olhos de Serpente (1998), de Brian de Palma, em que a história de um assassinato é vista pelo ângulo de diferentes personagens.

No jogo é possível controlar três personagens: Lucas Kane (o herói maldito, acusado de um crime que ele não cometeu), Carla (investigadora cética, que não crê em assuntos sobrenaturais, mas na realidade dos fatos) e Tyler Miles (o policial gente boa que ajuda Carla nas investigações).

Outro filme importante na construção narrativa de Indigo Prophecy foi Duna (1984), de David Lynch; e Coração Satânico (1987), de Alan Parker, que contribuiu para conceituar a curva dramática de Lucas Kane. Independente do gênero, os jogos precisam causar expectativas no jogador, da mesma forma que é essencial um mágico surpreender o espectador a cada truque, para continuar seu número. Para isso, torna-se necessário o levantamento das sensações que deseja atribuir com o jogo e com este desenho nítido buscar referências em livros, filmes, programas de TV e até mesmo em outros jogos. Ao jogar os três títulos destacados neste post, desenvolvidos em momentos distintos, fica nítido que seus referenciais são os mesmos. Então, o que esses jogos tem em comum além do gênero de terror psicológico?  Adrian Lyne, Stephen King e David Lynch.

Trailers oficiais

Alan Wake

Twin Peaks – série de TV que influenciou Alan Wake e Silent Hill

Silent Hill 1

Alucinações do Passado – referência para Silent Hill e Indigo Prophecy

Indigo Prophecy

Olhos de Serpente – referência narrativa para Indigo Prophecy

Outros clássicos de ação e terror psicológico:

Alone in the Dark 

Resident Evil

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